quinta-feira, 15 de maio de 2014

Video-fragmentos do Projeto Ondas Radiofonicas

AUTOR:

Marcelo Simon Wasem - Professor Adjunto no Instituto de Artes, Departamento de Linguagens Artísticas, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (RJ).

RESUMO:

O presente registro audiovisual faz parte da tese de doutorado denominado “Radiofonia Cartográfica: sintonias e deslocamentos em processos de arte colaborativa”. Esta possui como tema central uma investigação acerca dos relacionamentos entre artista e público em processos colaborativos, levando em consideração a obra não mais como síntese ou produto final desta interação, e sim um dispositivo poético na busca por aproximar estes dois agentes. Uma das experiências desenvolvidas na tese e apresentada aqui com o presente vídeo é o projeto Ondas Radiofônicas, realizado entre 2009 e 2010, tendo como principal local de atividades o Museu da Maré. Localizado na comunidade Morro do Timbau, o projeto interagiu com as comunidades que formam o complexo de comunidades da Maré, na cidade do Rio de Janeiro.
O projeto teve como meta trabalhar com a dimensão da sonoridade nas esferas simbólica, estética e política em um processo de arte colaborativa através de oficinas de educação não formal, grupos de discussões e ações que pudessem descentralizar o próprio fazer artístico do artista em direção ao público participante. Desta forma, ele contou comigo no papel de artista proponente e principal articulador, mas contando com a constante contribuição de outros artistas, educadores, ativistas de fora do bairro Maré em conjunto com jovens moradores e as populações das comunidades ao redor. Ao final deste período mais intenso de troca de saberes foi montada uma exposição coletiva, composta por instalações e obras interativas pensadas, executadas e mediadas pelo grupo de jovens mais participantes.
De forma sucinta podemos apontar que um dos aprendizados neste processo é a ampliação da escuta do outro, através da perda do controle total sobre todas as etapas, uma vez que a colaboração com o outro implica em um permanente estado dialógico. Também é impossível sintetizar tais processos em objetos de arte. Cabe ao artista, após este envolvimento, reunir fragmentos do que ocorreu e relatar para aqueles que não tiveram o convívio presencial sobre o que se passou, consciente de que este relato nunca poderá dar conta do que aconteceu e, por isso não pode ser representado ou re-apresentado por completo.
Voltando-se mais especificamente ao papel do artista, que realiza um deslocamento não só físico, mas também entre territórios simbólicos, em contato com diferentes agentes, podemos nos aprofundar nesta investigação da arte colaborativa. Como é chegar em uma coletividade que habita determinado contexto? É possível se aproximar, entender e se apropriar dos códigos culturais de uma região, levando ainda em consideração que em uma localidade podemos analisar características similares e díspares, que se aglutinam e convivem simultaneamente? Perguntas que atravessaram todo este período de contato com a Maré, iniciado com o projeto Ondas Radiofônicas e que continuam a fazer parte de nossas investigações em diversos outros contextos.

REFERÊNCIAS:
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